Leonardo Vieira

    • Poemas
    • Sobre

  • Niterói

    São gotas de mar sobre a praia
    São rastros na areia também
    Quando a lua nos dá sua graça
    Ela dá o que lhe convém

    Tão bem. Também.

    É o corte da lufa do vento
    Calor que nem a noite sabe domar
    A hipnose de um canto sereno
    Azul profundo da íris do mar

    E com febre penso no tempo
    Correndo para ela e olhando para trás
    Meus passos, cada onda desmente
    Minha febre aquece desejo voraz

    Satisfaz. Não mais.

    E as fendas da lufa do vento
    O calor a me cozinhar
    Lúcido sussurro sereno
    Engulo profundo, a íris do mar

    Então fico
    Neste doce calor a sonhar
    Com carícias do sol, e brisa de mar
    Ternuras se raiam, não se dorme ninguém
    Se afobam suspiros, adivinha por quem?
    janeiro 22, 2026

  • Sapatos

    Compadres, vamos celebrar
    Apenas hoje, permitam-se. E a cada gole do champagne, planejem suas próximas vigarices
    Foram doze meses de antecipação
    Sujando os sapatos
    Encolhendo-nos a cada lavagem e calçando-nos;
    Basta cupinchas, não mais!
    Doze prestações de nossas vidas!
    Merecemos hoje calçar um sapato novo!
    E no findar da contagem, ao som da primeira explosão
    Enlamaçaremos sorridentes vossos sapatos
    Com uma promessa falsa!
    dezembro 31, 2025

  • Poeta Cabotino

    Toda porta range;
    Todo galo canta.
    Qualquer estrela ou astro brilha e marca o coração.
    Sempre atordoado, escrevendo mediocridades
    Abobalhado com a lua dia sim e dia também
    O poeta cabotino assina muitas poesias.

    Além da assinatura, ele tempera
    Refoga, assa, salga e reveste seus versos
    Com véus e mais véus de clichês insuportáveis;
    Sua marca registrada, antes da assinatura, é sua “originalidade”.

    Talvez seja bom falar das prostitutas baratas
    (Elas ilustram bem o problema)
    Elas vendem pacotes e oferecem carnês para caberem em qualquer bolso.
    Algumas dessas palavras até dão carência de dois meses para começar o pagamento.

    Tamanha sua fatia de mercado que qualquer leitor, mesmo na tenra infância, já as conhece.
    Estou falando, é claro, de palavras como "Lancinante", "Taciturna" e “Cálido”
    Da preferida do cafetão - “Aviltar”!

    Ouvi também que há um super pacote recombobulador especial pague um, leve três
    Que muda palavras de boa reputação e estirpe por suas primas distantes - ver vira fitar, vermelho vira escarlate e qualquer remédio, chá milagroso, cataplasma ou mandinga que o valha magicamente se transformará no muito mais audível "unguento".
    Ora com trema, ora sem.

    Ah, não se esqueça,
    Apesar dos pesares, nocivo é um adjetivo honesto e de boa índole.
    Eu sei… Infelizmente ele decidiu por natureza ou má criação rimar com lascivo.
    Puxa vida, logo lascivo!
    Não tem jeito, reserve a vala para os dois!

    Ainda abaixo dessa vala metafórica, enterrei também metaforicamente outro costume de quem não tem nada a pensar que valha a pena ser escrito:
    Fazer poesia sobre poesia.
    Metapoesia autofágica e masturbatória; cansativa e maçante aos olhos alheios.
    Um gasto de papel inadmissível que jamais incluiria uma obra de arte disruptiva, crítica e temperada, refogada, assada, salgada e revestida de ironia como esta.
    dezembro 31, 2025
    Autoral, Crítica, humor, leve, Linguagem, Meta, Metapoesia, Observação, Poema, Poesia, poesia brasileira

  • Faladeiro

    No clube de arte
    Fala-se de arte coisa nenhuma
    Fala-se de política,
    Fala-se de futebol,
    Fala-se de beleza.
    Fala-se de beleza como se fosse o clima. Como se fosse o futuro. Como se fosse uma aposta

    Fala-se de qual o melhor noivo, qual o pior ladrilho
    Qual o rumo da tecnologia e a próximo baliza da linguagem
    Discute-se de tudo, de maneira profunda
    E de vez em sempre, há trovoadas de inspiração

    dezembro 26, 2025
    arte, Autoral, inspiração, Meta, Poema, Poesia, poesia brasileira

  • Devoto Cristão

    Mesmo que venham dos infernos
    Os pecados mortais
    Enroscam-se os terços e os derretem
    Prazeres quentes demais

    Depois de meros três trimestres
    A mão já não peca mais

    Nervos a gotejar
    Empoçam profundos desejos.

    Hora inocente e pura prole
    Esconde um alçapão
    E com sua moleira mole
    Chupas religião

    De dez em dez passam-se os invernos
    Sem curtir o verão

    Postos a celebrar
    Culpam pecados alheios.
    dezembro 22, 2025
    Autoral, Poema, Poesia, poesia brasileira

  • Outros dias

    Que fazer com cada esquina
    Com cada vício, corpo errante
    Que não exige fidelidade?

    Com cada hálito de cada dia
    Mesmo o ar que suspiro
    Já foi um dia um trago seu?

    Se bebi teus medos aos poucos
    Sem vômito, nunca
    Por que deixei o mapa de minha casa
    Entre seus lençóis?

    Nas madrugadas, ainda sou dono
    Pleno meu? Sem deixar nenhum resquício
    que já foi meu? Sozinho sou dono de uma vida
    para gastar com que?
    dezembro 12, 2025

  • Quando a guerra acabou

    Quando a guerra acabou
    Derreteram-se as armas
    Vigas de metal que sustentam o mundo novo
    Colheram flores selvagens
    Flores de árvores frutíferas, flores de mal-cheiro, flores de mato
    Para sepultar os homens engolidos pela terra
    Homens de gravatas assinaram papéis
    Bateram fotos, apertaram mãos
    Compartilharam abraços

    Hospitais de campanha desmontados
    Sorrisos abertos
    Relógios quebrados
    Na esperança que o tempo pare
    E a história não consiga rimar.
    dezembro 11, 2025
    guerra, história, Poema, Poesia, poesia brasileira, Social

  • Inseticida

    A quem devemos culpar por tanta miséria?
    Por tanta chuva que abunda nas plantações e afoga toda planta e praga?
    As crianças bichadas
    Que engolem moscas
    De lábios finos, olhos caídos e pele negra?
    Seria um crime promover a elas uma migalha
    De pão, de esperança ou filosofia?
    Será mesmo tão fácil borrifar o inseticida
    Para que fujam
    Qual em plena ausência sejam esquecidas
    Mas a culpada é a chuva
    Torrencial e periódica
    Purifica o chão do veneno
    E deixa brotar as pragas.

    dezembro 10, 2025

  • A paratusa da espoleta

    A paratusa da espoleta
    Só convidava especialistas

    Mesmo os especialistas discordavam entre si - afinal os especialistas não eram entendidos de tudo.
    Ou eram eles entendidos de paratusas, ou eram eles entendidos de espoletas.
    Assim ficou o ano inteiro:
    De debate em debate, foi-se aprendendo cada vez mais sobre a paratusa da espoleta.

    Até que para a iluminação de todos chegou um leigo, e logo apontou um erro crítico!
    Era claro, óbvio! Não era paratusa da espoleta coisa nenhuma!
    Era a PARAFUSA da espoleta!

    dezembro 9, 2025

  • Tropel

    Olha, a nuvem preta no céu 
    Esgueirando os olhares do chão
    Chuva que começa a cair
    Limpando o ar do sertão
    Da poeira chutada por pés

    Vem, vem ver o gado beber
    Deixa crescer plantação
    Deixa sorrir o barão
    Que deixa beber os malês
    De águas que rolam no chão

    De nuvens que pairam no céu
    Rolam em contramão
    Desmanchando papéis

    Eis, o tropel do povo outra vez
    Que põe peneiras ao sol
    Quem sacrificou alazão
    Agora persegue a maré

    Chora, enxada que espera de pé
    Encostada naquela estação
    De um dono que partiu
    Sem levar seu coração

    junho 18, 2025
    Observação, Pobreza, Poema, Poema Autoral, Poesia, poesia brasileira, Social

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